Ponto de vista: “Anotações sobre o I Seminário Observare”, por Joe Marçal G. Santos

Anotações sobre o I Seminário Observare

Joe Marçal G. Santos[1]

O grupo de pesquisa Observare, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PPGCIR) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), promoveu na última quarta-feira, 21/09/2016, o primeiro de uma anunciada série de seminários que visam socializar as investigações em andamento e estabelecer redes de trabalho. A primeira edição tratou do tema Política, Religião e Sexualidade no Ambiente Escolar. Para tal, desenvolveu uma mesa a partir de três conferências, cujas abordagens específicas foram as seguintes: Projeto Escola sem Partido, pelo Prof. Dr. José Rodorval Ramalho, da UFS; Ensino Religioso no contexto da Secretaria Estadual de Educação de Sergipe, pela Profa. e gestora pública Gabriela Zelice; e, por fim, Sexualidade na Escola, pelo Prof. Manuel Alves do Prado Netto.

Já que “seminário” define um tipo de metodologia no qual se “semeia” problematizações e proposições investigativas, além de informações específicas sobre algum tema, vou me valer da ideia para considerar o seguinte: que ideia de Ciências da Religião resultou do que foi exposto e discutido neste encontro? Tal pergunta não vai soar marginal se considerarmos que (não tenho estatísticas) possivelmente grande parte do público, dado o teor do tema, não era da área de Ciências da Religião. E minha suspeita é que essa parcela, se houvera, saiu do evento tal como nele chegou: sem saber exatamente quem é essa ilustre desconhecida.

Com isso chego a minha questão: suspeito que nossa reivindicada constituição interdisciplinar pode e tem facilmente se voltado contra nós mesmos/as, na medida em que se torna mais um chavão que uma efetiva visão institucional e orientação de práticas teórico-metodológicas. Em alguns importantes momentos de falas – tanto na mesa, quanto na reação do público – ao menos para mim, se explicitou o quão desconhecida é as Ciências da Religião, e especialmente a que é praticada no Brasil há mais de 40 anos. No que segue, quero considerar alguns aspectos sobre isso, ponderando-os sempre numa direção: a tarefa que nos cabe de mostrar para que estamos aí.

O tema da sexualidade e gênero relacionado à educação, com implicações também para a religião, tem sido objeto de larga produção da teologia feminista e de estudos de gênero nas Ciências da Religião nos, pelo menos, últimos dez anos. Trata-se de mais de uma geração de pesquisas que lamentavelmente estão ainda por demais ausentes em nosso meio, deixando a desejar um efetivo diálogo entre disciplinas e/ou áreas que, sobretudo nas Ciências Humanas, têm lidado com esse tema e seus referenciais teóricos. Indicativo dessa ausência foi a não distinção conceitual (na verdade, fruto de uma idiossincrasia política) entre “ideologia” e “teoria” de gênero que permaneceu durante o debate; coisa que não apenas deixou o tema sem o devido “sal” teórico como reiterou aquilo que a fala de Prof. Manuel Alves mais salientou: a ignorância sobre o assunto. Ponto para o seu diagnóstico; tarefa de casa para nós.

Já sobre o tema do Ensino Religioso em Sergipe, Profa. Gabriela Zelice foi feliz em contextualizar historicamente a prática do Ensino Religioso em nosso país e estado, bem como relaciona-la com o processo da Base Curricular Comum Nacional – o mais significativo projeto em curso, no que diz respeito à educação no Brasil. Sua fala, nesse sentido, acabou resultando em um convite para as Ciências da Religião se fazer conhecida na rede de ensino em Sergipe. Além do histórico abordado já estar bastante aprofundado, a problematização do Ensino Religioso proselitista e/ou catequético já se tornou um bordão antigo em nossa área. Continua relevante, mas ninguém, em sã consciência, o defende como modelo propositivo para a educação pública. Sabe-se o que não se quer, mas precisamos avançar em saber e sustentar teoricamente o que se quer. Para isso, as Ciências da Religião têm não apenas se debruçado nesse problema, mas pensado e proposto soluções nas quais poderíamos nos inspirar.

Contudo, continuamos reproduzindo a ideia da “dificuldade de ensinar religião de forma neutra”, sem nenhuma problematização do que já se revelou uma falácia: por que não se cobra o mesmo na Educação Física e nas Artes? De que “neutralidade” exatamente estamos falando? Sim, há razões históricas para essa suspeita. Mas não podemos continuar operando nesse registro quando temos uma “ciência” que aborda a religião, deslocando sujeitos para uma relação ético-científica com esse tema. Tão difícil é “formar” professores para o Ensino Religioso quanto para qualquer outra disciplina, porque formar para a atitude científica consiste em um desafio per si. É verdade que cada área repercute a seu modo essa questão, mas ensinar a sua crença religiosa no Ensino Religioso, do ponto de vista pedagógico, é tão “doutrinação” quanto ensinar o seu esporte favorito na Educação Física. Contudo, o desafio implicado para o Ensino Religioso tem uma alternativa concreta nas Ciências da Religião. Uma vez isso posto, podemos dar lugar a coisas muito mais importantes, como discutir sobre as reais implicações da escolarização da religião, que problematiza o Ensino Religioso como tal, deslocando-o do lugar comum e, de modo geral, ingênuo – cujo corolário é “religião é bom para as pessoas” – com que é tratado.

A questão acima – quanto à formação de “atitude científica” que se reverta em ética profissional –  repercute também no que foi tratado sobre o Projeto Escola sem Partido. Pelo que foi exposto, o Projeto é inspirado na iniciativa de um pai escandalizado com a educação do filho ao ver Francisco de Assis sendo comparado com Che Guevara em um material didático. Desconheço o contexto da comparação; mas ela é assim tão incabível? Ambos não devem uma passagem significativa de suas biografias ao envolvimento com o cuidado de “leprosos”? Não quero com isso defender o valor pedagógico da comparação, mas relativizar o “escândalo”. E também por precaução: não me parece prudente tomar escândalo por argumento, a fim de acusar uma “doutrinação político-ideológica” – nova versão do “comunistas-comedores-de-criancinhas” – em curso nas escolas país afora.

Tornou-se lugar comum que um pai e uma mãe estejam cobertos de razão para se indignarem com a educação de seus filhos, especialmente no ensino público. Curioso que, de modo geral, não se indignam. Pelo contrário, atribuem a escola uma “infalibilidade” esta sim escandalosa. Nesse sentido, que um pai tenha saído dessa inércia e se escandalizado, ótimo.  Contudo, passar disso à aceitação acrítica de uma Proposta de Lei do Senado (PLS 193/2016, Dep. Magno Malta)[2] que, partindo de um problema (mal elaborado), incide diretamente no sistema educacional do país, parece nem de longe razoável. Tanto quanto basear-se em estatísticas publicadas pela imprensa – tão doutrinadora quanto – para sugerir relevância ao projeto. Ora, uma análise criteriosa da proposta como tal, ao menos sob alguns aspectos, era o mínimo esperado. Do contrário, que aspectos da proposta não a tornam parte do problema que pretende resolver?

Por sua vez, no que tange às Ciências da Religião, vale perguntar-se particularmente: se um dos princípios do referido projeto é o do primado da educação familiar sobre a educação escolar (Art. 2, VII), como será possível desenvolver um Ensino Religioso laico, baseado em princípios científico-pedagógicos? Uma licencianda de nosso curso em Ciências da Religião, durante seu Estágio numa escola da rede estadual em Aracaju, relatou-me a reação de um aluno seu: “professora! Se minha mãe sabe o que eu estou aprendendo aqui, vai me proibir de vir as suas aulas”. Se me lembro bem, a aula tratou sobre o rito como característica comum de diferentes religiões. Talvez ela tenha comparado o culto evangélico a uma festa de terreiro – comparação tão imprópria quanto a do santo com o guerrilheiro? Ora, nesses termos, o Ensino Religioso, de facultativo para o/a aluno/a, se tornará inviável para o/a professor/a. E isso não se estende a todas as ciências para as quais a ilusão ingênua de neutralidade caiu por terra com a tradição de pensamento inaugurada por Max Weber e outros/as autores/as de seu tempo?

O problema que estou destacando é o seguinte: de nossa parte, isto é, da parte das Ciências da Religião, há um expressivo e generoso gesto de acolhida de diferentes vozes acadêmicas. Mas nossa voz é pouco ouvida, e creio, por que pouco expressada. Parece que estamos dispostos a pôr a mesa, mas não tanto a servir o cardápio. Situações para tal “comensalidade” serão mais significativas se, da conversa à mesa, surjam processos que sedimentem efetivas parcerias. Coisa que implica em identidade institucional e em práticas sólidas de ensino, pesquisa e socialização de produção acadêmica por meio de extensão universitária. Quando o assunto é religião, é sintomática a carência de representações conceituais adequadas, seja em salas de aula ou em projetos políticos pedagógicos. Mesmo em instâncias diretivas de políticas públicas, reproduz-se o que cotidianamente acontece: quem se reporta à religião, o faz da maneira que julga ser a melhor, baseando-se na liberdade de crença, descrença e de expressão de seu ponto de vista. Tudo isso, porém, raramente associado à liberdade de pensamento. Na Universidade, embora inadmissível, isso também está virando rotina.

Todavia, ao reconhecer esses desafios, quero finalizar sublinhando oportunidades. Dentre as rotinas que fazem a universidade, atividades como essa são o caminho para fazer diferença. O encontro promovido foi o primeiro de outros tantos, propondo uma regularidade imprescindível para estabelecer relações duradouras e profícuas da universidade, a partir das Ciências da Religião, com instâncias da sociedade. As considerações que faço pressupõem não apenas essa possibilidade como as metas que o Observare se coloca. Quer dizer, me expresso na parceria e na cumplicidade que nos caracteriza, e também na responsabilidade compartilhada de dar caras à sociedade e mostrar para que as Ciências da Religião está aí. Com esse seminário, um processo foi semeado e afirmado. E uma característica encantadora da ética científica é transformar, com a devida modéstia, lacunas em possibilidades para o pensamento e a criatividade. Por isso tudo, vida longa ao Observare!

[1] Doutor em Teologia, professor do Núcleo de Graduação em Ciências da Religião da UFS, pesquisador associado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Cinema da UFS. Grupo de Pesquisa Correlativos – Estudos em Cultura e Religião (GPCOR/UFS/CNPq) Email: jmgsantos@yahoo.com.br. Lattes: lattes.cnpq.br/5359207133765624.

[2] Pode-se acessar e manifestar a favor ou contra o projeto em https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=125666. Acesso: 22 set. 2016.

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4 comentários em “Ponto de vista: “Anotações sobre o I Seminário Observare”, por Joe Marçal G. Santos

  1. “Com isso chego a minha questão: suspeito que nossa reivindicada constituição interdisciplinar pode e tem facilmente se voltado contra nós mesmos”, acredito que essa conclusiva, expressa no texto, deve ser o eixo de percepção para os que compõem o Observare. Aqui quero expor minha opinião que, antes de mais, esta em parte, em consonância com o artigo de opinião do Prof. Dr. Joe Marçal G. Santos.
    Antes de expressa-la, gostaria que me respondessem; qual foi o objetivo do observare em promover esse seminário? Se foi para formação de futuros profissionais da educação, como metodologia a ser aplicada em sala de aula, em parte foi atingida. o que faz me questionar e refletir é; qual o critério escolhido para convida os palestrantes desse evento? Vejamos: O primeiro palestrante, Prof. Dr. José Rodorval Ramalho, falou sobre o tópico do tema entendido por “religião” e emergiu ao conhecimento dos presente a historia do “projeto escola sem partido” que nos deixa a par da necessidade de “alteridade” no ambiente escolar. o segundo palestrante, Profª Gabriela Zelice, expos a legislação e os conteúdos programáticos, fruto dos paramentos curriculares na percepção do Estado, através da Secretaria Estadual de Educação. Porém o terceiro palestrante, profº Manuel Alves do Prado Netto, que abordou o subtema “sexualidade no ambiente escolar”, deixou a desejar, pois ele e os que pediram a palavra no momento de sua fala não nos acrescentou nada no sentido de contribuição para a nossa formação, ou melhor, para a formação em Licenciatura da Ciências da Religião. Sua participação, como de parcelas dos que lhes apartearam foram no sentido de levantar bandeiras de defesas para os homossexuais. Sem contudo, levar em consideração a ética que deve ter um professor em sala de aula. A exemplo disso, cito a experiência relatada pelo palestrante da correção de um aluno seu, na hora que ministrava aula sobre o homossexualismo exemplificando com o beijo homo afetivo na novela da globo.
    Bem, concluo minha participação, alertando para os que compõem o observare para a necessidade de seleção mais criteriosa no convite aos futuros palestrantes dos próximos eventos.
    Jorge Bomfim

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    1. Prezado Jorge Bomfim,

      Antes de tudo, agradecemos pela atenção da sua resposta e avaliação ao I Seminário Observare. O objetivo geral da promoção deste I Seminário foi dar visibilidade ao Grupo de Pesquisa Observare, estabelecendo um espaço diálogico entre os temas de crescente interesse dos pesquisadores e questões centrais que dizem respeito não apenas à formação do licenciado em Ciências da Religião, mas a dilemas concretos no ambiente escolar, o que envolve todas as partes interessadas desta instituição. Certamente a consciência ética foi um atributo essencial para a escolha de cada um dos palestrantes. O critério para a formação da mesa foi justamente a capacidade de cada um deles em apresentar perspectivas e despertar reflexões para realidades que estão acima dos valores e escolhas pessoais. O ambiente escolar é um microcosmo das diversidades e conflitos da sociedade. O contraditório é um fato e a livre expressão é um direito constitucional. Agradecemos mais uma vez a sua participação!

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  2. Não participei do seminário e sinto muito por isso. Mas, o resumo supracitado do Prof. Dr. Joe Marçal G. Santos, me levou as duas conclusões: primeiro que perdi um grande evento e segundo é que compartilho do ponto de vista exposto nesta frase “Quer dizer, me expresso na parceria e na cumplicidade que nos caracteriza, e também na responsabilidade compartilhada de dar caras à sociedade e mostrar para que as Ciências da Religião está aí.”( Prof. Dr. Joe Marçal G. Santos), na qual mostra a importância de cada tema abordado no seminário, apontando a necessidade de um maior aprofundamento e apropriação do curso “Ciências da Religião” por parte principalmente dos discentes deste curso. Adorei a iniciativa Observare… Que venha mais…

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